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O começo da escalada esportiva
no Brasil foi uma evolução natural, que se estabeleceu
lentamente devido às novas tendências da época,
da mesma forma que aconteceu na Europa e posteriormente nos EUA
no final da década de 70 e ao longo dos anos 80. Um conceito
que ajudou muito o estabelecimento da escalada esportiva por aqui
foi a MEPA (máxima eliminação de ponto de apoio),
introduzida por alguns escaladores em 1979/80. Entre eles: André
Ilha, Alexandre Portela, Dário dos Santos, Geovani Tartari,
Sérgio Bruno, Sérgio Poyares e Sérgio Tartari.
Com este novo desafio fazíamos as escaladas tradicionais
tentando eliminar todos os pontos de apoio. Eram comuns escaladas
com graduação média fácil e com trechos
difíceis onde os grampos muito próximos permitiam
escalar em artificial A0, o que era comum no Brasil e em outros
países. Esse era o desafio na época, eliminar o A0
e os escaladores que mais se destacaram foram: André Ilha,
Marcelo Braga, Sérgio Poyares e Sérgio Tartari.
Por exemplo, muitas escaladas com graduação de 4/VI
tinham os lances de sexto grau feitos em A0, mas teoricamente não
existia ainda o sétimo grau devido à limitação
do sistema de classificação da época. Isto
é, existiam lances de sétimo grau mas eles não
eram oficialmente reconhecidos. O material também não
ajudava porque não existiam calçados próprios
como os de hoje, usávamos Conga, Kichute e botas rígidas
(para uso em gelo). Também não se conhecia o uso do
magnésio para escalar e as cadeirinhas geralmente
eram maiores e cobriam até os ombros, dificultando os movimentos.
Enfim, o material que existia não era o adequado e era muito
difícil conseguir os melhores da época que eram importados,
mesmo para quem tinha dinheiro.
No início dos anos oitenta eram mitos escaladas como Lagartão
(grau antigo 6° sup/A1), Ás de Espadas (grau
antigo 5° sup/A1), Patrick White (grau antigo 6°/A1),
Sombra e Água Fresca (grau antigo 5°/A1),
Waldemar Guimarães ou Contra Secundo
(6° sup/A1) e até o Trinta de Julho (5°/A1),
que era considerada a aderência mais difícil
do Brasil. Hoje sabemos que esta última via tem muitas
agarras e não é propriamente uma escalada de aderência.
O grau de artificial A0 era antigamente considerado como A1. As
escaladas que tinham lances em pequenos trechos negativos, conhecidos
como barriguinhas, eram as mais temidas. Muitas vezes,
quando um escalador era convidado para ir a uma escalada nova ele
indagava - Tem barriguinha? Se tiver eu não vou! - Vale salientar
que as vias novas conquistadas eram entregues aos clubes e tinham
inauguração. Escolhido o dia, várias cordadas
iam escalar, formando, às vezes, enormes filas que subiam
sob Sol quente. Isso era uma tradição devido ao reduzido
número de escaladas na época. Lembro que na inauguração
do Urbanóide, em pleno verão de 1983, algumas pessoas
passaram mal devido ao calor insuportável.
Na época existiam pouquíssimos escaladores e todos
se conheciam, ao ponto de uma cordada escalando o Lagartão
pudesse ser reconhecida de longe, porque eram poucos os que tinham
condições de subir tal dificuldade técnica.
Depois da maioria das barriguinhas das vias clássicas
terem sido feitas em livre, resolveu-se então abrir vias
com negativos maiores, para aumentar o desafio. Aí entram
os Ácidos no Morro da Babilônia. Alguns
escaladores consideram que o Ácido Lático
(7a) foi a primeira via esportiva de importância do Brasil,
devido à extensão dos lances em declividade negativa.
Porém, ela foi conquistada de baixo para cima e todos os
lances foram conquistados em livre, após várias tentativas
de André Ilha, Marcelo Braga e Marcelo Ramos. De fato, este
foi realmente um marco que ajudou muito o estabelecimento da escalada
esportiva. Depois foram abertas outras vias na mesma parede.
A Pedra do Urubu, situada na base do Pão de Açúcar,
teve papel relevante, apesar do tamanho reduzido. Antes, ela servia
como campo escola para aqueles que queriam aprender a escalar artificial
A0, porque havia duas vias com grampos de metro em metro. A primeira
situava-se onde é hoje o Urubu Capenga (7a), mas já
em 1984, o Marcelo Braga fazia tudo em livre com corda de cima,
mas calçando Conga. Era inacreditável! Muito tempo
depois os grampos originais (parafusos de 15 cm) foram removidos
e a via foi regrampeada para ser guiada em livre. Posteriormente
foram abertas outras vias. O Urubu Mestre (8c) era o
grande desafio e teve sua origem também numa via de artificial
A0, com dezenas de grampos de meia polegada. Em 1987, Wolfgang Gullich
abriu o Southern Confort (10a) e mostrou a distância
que separava os escaladores europeus dos brasileiros na época,
porque o grau mais difícil escalado por nós, teoricamente,
era 8c. Somente seis anos depois a via foi repetida pelo Luiz Carlos
Bitencourt (Pita), mas de corda de cima. A pedra do Urubu, quem
diria, se tornou o ponto de reuniões dos primeiros escaladores
esportistas ou falesistas. Todos se encontravam lá
e o Paulo Bastos (Macaco) era o que melhor escalava no local e era
também o melhor escalador de boulder do Brasil, tendo sido
o primeiro a fazer os dois blocos mais difíceis da época,
o Olhos de Fogo no Grajaú e o Expressão
Corporal, na Praia Vermelha. Dessa forma, as escaladas esportivas
eram praticadas ou na Pedra do Urubu ou nos Ácidos.
Em 1986, o Marcelo Ramos abriu no Morro do São João
(Copacabana), a priori, o primeiro 8c brasileiro, batizado de Andrômeda
e teve também significado especial por ter sido a via mais
difícil da época (feita em livre). É importante
frisar a participação fundamental do Ramos na história
da escalada esportiva no Brasil. Além de muitas outras vias
conquistada por ele, também foi o inaugurador do Campo
Escola 2000. A primeira via aberta, em 1987, foi a Pedrita
(8a), mas a conquista foi de forma curiosa porque ele subiu numa
árvore fina e colocou dois grampos que serviam de top rope,
porque não havia a certeza de que era possível escalar
naquela parede, tão negativa. E para fazer a escalada tínhamos
que subir pela árvore para colocar a corda. Só depois
de muito tempo a via foi totalmente grampeada para ser feita guiando.
A origem do nome Campo Escola 2000 veio de um grupo de pessoas de
um clube de excursionismo que caminhava pelo lugar no início
dos anos oitenta. Eles pensaram que era impossível escalar
naquela parede, talvez só no ano 2000, cerca de vinte anos
depois. Na época, a prática de bouldering era restrita
aos campo escolas, que eram lugares onde as pessoas aprendiam a
escalar ou treinavam, como no Campo Escola do Grajaú, no
C.E Pedra Rachada (Cascadura), no C.E. de Itacoatiara (Niterói)
etc. Daí o nome, que era uma alusão a um futuro campo
escola para o ano 2000.
Depois do Pedrita, o Ramos novamente inovou, porque viu uma linha
muito boa por onde poderia passar uma bela escalada, mas o início
e o fim eram impossíveis para a época. E já
que as pessoas faziam vias artificiais com grampos, ele resolveu
colocar algumas agarras de resina. Sabendo do falatório que
isso daria, ele batizou de Estória Sem Fim. Foi
outro marco na história da escalada esportiva. Aos poucos
a via foi perdendo as agarras artificiais porque os lances foram
sendo feitos sem elas, primeiro pelo Alexandre Portela e muitos
anos depois pelo Helmut Becker. Hoje ela é ainda uma das
vias mais difíceis do Brasil (10a). Ironicamente, muitos
escaladores foram contra a idéia da remoção
das agarras e para resolver o problema, foi feita uma votação
entre os escaladores e prevaleceu a boa ética, o Helmut tirou
todas as agarras artificiais restantes.
Ao longo do tempo, o Campo Escola 2000 recebeu várias vias
novas se tornando a maior referência de vias esportivas no
Brasil, se igualando em importância aos Ácidos, que
infelizmente caiu no esquecimento por culpa de uma tentativa de
reflorestamento mal sucedida, feito na base e por escaladores.
Por volta de 1985, os paranaenses abriram as primeiras vias esportivas
no sul, mas não puderam ir muito longe por causa da falta
de afloramentos rochosos adequados. O único conhecido era
o Anhangava, que foi tão importante para os colegas do Paraná
quanto os Ácidos foram para os cariocas. Outro lugar de importância
histórica é a Ilha do Mel, por causa da via Porcos
com Asa. Na época existia até uma rivalidade
(amistosa), entre os escaladores do Paraná e do Rio de Janeiro.
A competitividade era realçada durante os primeiros campeonatos
realizados no Brasil: Sul Americano de 1989 e 1990, realizados em
Curitiba, e os Brasileiros realizados no topo do Pão de Açúcar,
de 1990 a 1992. Mas tudo acabava em festa mesmo porque todos se
conheciam e havia um respeito mútuo. Nomes como Ronaldo Franzen
(Nativo), André Lima, Júlio, Chiquinho, Dálio
e Bito, entre outros, não podem ser esquecidos porque foram
os precursores da escalada esportiva no Paraná. Ao longo
dos anos noventa a evolução do esporte no Estado foi
um pouco lenta, mas atualmente o número de escaladores de
alto nível no Estado pode ser comparado aos dos Estados do
Rio de Janeiro e São Paulo.
A participação de brasileiros em campeonatos internacionais
não é recente, em 1987, um grupo de cariocas e paranaenses
foi disputar uma competição em Córdoba, Argentina,
vencido pelo Marcelo Braga. Na época as competições
eram na rocha, inclusive na Europa. Em 1989, teve início
as primeiras competições em rocha no Brasil, primeiro
foi em Vila Velha (PR) e em 1993 foi no Rio de Janeiro, na falésia
da Lagoa. A maioria das vias eportivas que existem na Lagoa foram
fabricadas para o evento, com buracos abertos artificialmente
para servirem como agarras. Triste exemplo dado pelos franceses
e seguido à risca por alguns cariocas que queriam se promover.
Já com o estabelecimento definitivo do estilo escalada esportiva,
restava procurar outras áreas onde a rocha daria as condições
favoráveis para a abertura de vias e as mais apreciadas são
as paredes negativas e com boas agarras. Novas vias foram abertas
no início da década de noventa no Morro da Formiga
(Petrópolis), no Vale do Bonfim (Petrópolis), em Itacoatiara
(Niterói), na falésia da Praia do Pepino, etc. Além
do Paraná, foram abertas vias em Santa Catarina e no Rio
Grande do Sul, de onde tem surgido atualmente alguns dos melhores
escaladores esportivos do país. No final dos anos noventa,
o Morro da Pedreira situado na Serra do Cipó se tornou o
maior centro de vias esportivas do país, considerando a concentração
de vias numa mesma área. O início foi em 1986, quando
o André Ilha, a Lúcia Duarte e o André Jack
abriram as primeiras vias. Até o final da década de
80 íamos para lá para conquistar vias com material
de proteção móvel, abrimos muitas, mais de
100. O André Ilha e o Antônio Magalhães, que
abriram a maioria, queriam manter o lugar como um centro de escalada
pura, tradicional. Mas não foi isso que aconteceu.
A primeira via esportiva foi o Movimentos Eróticos
(VIIa), aberta em 1989, mas foi conquistada com material móvel
por Antônio Paulo Faria e Lilian White.
Hoje este estilo vem sendo denominado, por alguns, como escalada
esportiva tradicional. Depois vieram as vias totalmente grampeadas.
Em 1991, o Sérgio Tartari e o Pita deixaram duas importantíssimas
contribuições, Lamúrias de Um Viciado
(VIIb) e Sinos de Aldebaran (VIIIb), ao mesmo tempo
que o Luis Claudio Cortez (Ralf) abria o Na Calada da Noite
(VIIIa). Posteriormente, abrimos várias outras vias esportivas,
como o Jungle Boy (VIIIb). Em 1993, o Ralf e o Pita
abriram o Sombras Flutuantes, o primeiro 5.13 (IXb)
da Serra do Cipó. Depois disso, com a popularização
do lugar, muitos outros escaladores contribuíram, inclusive
os escaladores locais que depois desenvolveram dois outros centros
de escalada esportiva: Lapinha e o Bauzinho.
Ao longo dos anos noventa alastrou-se a febre da escalada
esportiva em vários pontos do país. A escalada
tradicional foi quase que colocada de lado, muitas vias caíram
no esquecimento e foram poucas as escaladas conquistadas, se comparado
ao número de vias esportivas abertas no mesmo período.
Era o tempo onde os escaladores andavam com calças de lycra
coloridas e apertadas. Quanto mais colorida melhor e algumas eram
rosa choque. Lembram? Em um campeonato em Curitiba, em 1990, eu
ouvi uma mulher me chamar de boiola. Caí na real e mudei
os meus hábitos. Muitos escaladores que tinham uma visão
mais global e escalavam de tudo, estavam apreensivos por medo da
escalada tradicional desaparecer, inclusive eu. Felizmente isso
não aconteceu. O Estado de São Paulo começou
a aparecer no cenário por causa de alguns bons centros de
escalada, principalmente na área da Pedra do Baú,
entre outras. É inegável o papel dos muros de escalada
em São Paulo na preparação dos escaladores
paulistas, onde foram moldados alguns dos melhores escaladores
do estado e do país, já que não existem falésias
por perto. Na segunda metade da década de 90, vários
novos centros de escalada esportiva foram abertos em vários
Estados, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São
Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Goiás e Brasília.
O centro mais recente e que merece destaque é a Barrinha,
situado na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. Aberto no ano 2000,
já é referência nacional pela qualidade e quantidade
de vias de altíssimo nível. O local conta atualmente
com duas vias de IXb, cinco vias entre Xa e Xb, uma de XIa e outras
com graus menores. É inquestionável o aumento anual
quase que geométrico do número de falesistas
no Brasil. Nós sabemos o que aconteceu no passado, mas qual
será o futuro da escalada esportiva no Brasil? No resto do
país continuará a se repetir os mesmos erros que a
massificação está causando nas falésias
mineiras da Lapinha e do Bauzinho? Como ficam as questões
éticas e ambientais? Como resolver o problema da desinformação
dos escaladores? Quais serão as novas tendências? Como
ficará a briga entre escalada esportiva e escalada
tradicional esportiva?
Texto e fotos: Antônio Paulo
Faria.
Publicado na revista Fator2 números 13 e 14.
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