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Do Kichute ao Five-Ten - A evolução do material de escalada
 
 
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Eu estava em City of Rock (Idaho - EUA) escalando com um amigo americano e quando fomos para a base de uma outra torre de granito para escalar, encontramos uma dupla de escaladores que falava uma língua muita estranha, percebia que era do Leste Europeu. Mas a minha surpresa foi quando eu olhei para os pés de um dos escaladores. Eu comecei a rir porque o cara era da antiga Tcheco-eslováquia e escalava com um Kichute, exatamente da mesma forma que nós fazíamos aqui nos anos 70 e 80. As travas eram cortadas para a sola ficar lisa e ter uma área de contato maior com a rocha, e assim aumentar a aderência. Muito curioso, eu fui conversar com o sujeito.

Perguntei: - Você escala com isto?
O cara respondeu, rindo: - Antigamente nós usávamos este calçado para escalar na Tcheco-eslováquia porque não tínhamos acesso ao material importado por causa do comunismo, mas hoje em dia não usamos mais, eu uso este par só de “onda”.

O modelo que ele usava era uma cópia perfeita do Kichute brasileiro e eles o adaptaram para escalar, mas originalmente usavam para jogar futebol exatamente como nós. Eu perguntei para o meu amigo, que conhecia um pouco do Brasil:
- Será que os tchecos copiaram a idéia dos brasileiros ou os brasileiros copiaram os tchecos ou foi uma bizarra coincidência?

Os dois países tinham duas coisas em comum: uma era a dificuldade de conseguir material de fora do país (lá por causa do comunismo e aqui por causa do “durismo”) e a outra era o Kichute. Mas a história do material de escalada no Brasil vai mais longe.

Até 1981, praticamente não existia no Brasil botas de escalada, magnésio ou outros equipamentos que conhecemos hoje. Todos queriam ter botas de couro rígidas que usualmente eram utilizadas para adaptar grampom para escalar em gelo. Tentávamos copiar o máximo o estilo europeu e como não tínhamos acesso ao equipamento importado e nem dinheiro (o valor do dólar era muito alto na época), fazíamos as nossas improvisações. Mas na época, mesmo na Europa que era o grande centro de escalada, o material não era tão avançado, os equipamentos mais sofisticados estavam começando a ser desenvolvidos.

Na década de 50 alguns brasileiros utilizavam a bota cardada, isto é, alguns caras colocavam alguns tipos de pregos na sola da bota para tentar imitar o grampon, só que aqui era para escalar na rocha!!! Nas décadas de 60 e 70 alguns usavam sapatilhas feitas de pano e sola de corda de sisal, elas eram conhecidas por alguns como Chinapau (elas ainda existem), mas a sola desfiava e acabava rapidamente. No final da década de 70, depois de experiências com diversos tipos de calçados, chegou-se a conclusão de que o Conga era o melhor, aderia mais e funcionava como uma sapatilha. Logo depois alguém teve a idéia de tirar as travas do Kichute, que logo se tornou popular para escalar, até que o fabricante mudou a composição da borracha, tornando-a menos aderente. A alteração foi sensível e alguns voltaram a usar o Conga. No Brasil, as primeiras botas próprias para escalar em rocha começaram a chegar por volta de 1978, mas apenas uma ou duas pessoas possuíam. Os primeiros modelos ficaram sendo conhecidos como PA, que eram as iniciais de Pierre Alain, que foi quem as desenvolveu. Posteriormente chegaram as do modelo EB. Mas na época as botas eram chamadas de Varrape (era um tipo de bota, mas que aqui acabou sendo uma denominação comum utilizada para todas as outras). Era o máximo ter um par de EB nos pés, alguns diziam que a sola grudava na rocha como chiclete. É claro que as comparações eram com o Kichute. Mas só quem tinha dinheiro e podia viajar para fora podia comprá-las. Não eram vendidas no Brasil. Aliás, na época existiam pouquíssimos escaladores ativos por aqui, eram estimados algo em torno de 500 e apenas uns 10 raramente viajavam para a Europa. O escalador que viajava para fora era muito invejado. Antes de usar Conga eu escalava com uma bota feita para motociclista. Em 1983, escalei no Rio com o suiço Roman Vogler, que era um dos feras da Europa na época e ele ria quando olhava para as minhas botas de motociclista.

Um belo dia, alguém apareceu com uma Fire (primeiro modelo da Boreal), isso foi em 1983 ou 1984. Logo veio a fama de ser uma bota mágica, porque “grudava” na rocha. Realmente a sola era muito boa, os espanhóis tinham inventado a goma cozida para solados. Foi uma tremenda evolução. O reinado da Fire durou vários anos (na Europa, nos EUA e no Brasil), até que outros modelos surgiram da própria Boreal e da La Esportiva.

Logo depois da Fire, a Boreal lançou as sapatilhas Ninja e se tornaram grande sucesso. O problema é que elas gastavam rápido e era difícil comprá-las. Alguns tinham botas mas não as usavam porque tinham medo de gastar a sola e não ter como ressolar. Alguns conseguiam pedaços de sola e mandavam para o sapateiro colar. Uma vez o Marcelo Braga foi à Espanha e trouxe muitos quilos de rolos de borracha da Boreal. Outros faziam a própria ressola, mas economizavam os pedaços. Ou seja, colavam com Superbond pequenos pedacinhos somente onde era necessário, fazendo parecer uma colcha de retalhos. Era espantoso ver as solas das sapatilhas velhas de alguns escaladores cariocas cheias de quadradinhos desiguais, às vezes em forma de triângulos, alguns descolando. Logo depois que a Fire e a Ninja apareceram, o conceito de escalada de aderência mudou por aqui. Antigamente algumas escaladas de agarras eram consideradas de aderência, mas depois que abriram as vias do Sumaré (Rio) é que realmente o pessoal entendeu o que era aderência e o que era a supremacia dos calçados da Boreal. Nunca mais esqueço a minha felicidade quando comprei a minha primeira Fire. Usei tanto que quando um dos lados gastou, comecei a usálas de pés trocados, só para aproveitar o outro lado menos gasto. Machucava muito, mas funcionava. Finalmente, nos anos 90 chegaram as botas Five-Ten com solados Stealth.

No Paraná, em 1986, a Natisnake (hoje conhecida como Snake) lançou a sua própria bota que tinha uma sola muito boa, mas o corpo era muito desengonçado e não tinha pé esquerdo ou direito, tanto fazia em que pé você calçava. Mas eram boas. Hoje o próprio Snake deve rir do modelo que ele e o Nativo produziram de forma artesanal. Mas valeu o esforço porque depois disso a produção evoluiu, basta ver a qualidade do material atual.

Até a década de 70, muitos escaladores usavam cordas de sisal ou cordas náuticas e não existia o baudrier (cadeirinha), a corda era amarrada na cintura. Um acidente que ficou na história foi a morte da Marizel, na Pedra da Gávea, que caiu e morreu por asfixia porque ficou pendurada com a corda esmagando sua cintura. No início da década de 80 já eram fabricadas cadeirinhas aqui no Brasil e algumas cordas importadas começaram a chegar. Antes era comum o uso de cordas náuticas, alguns usavam a corda argentina Marasco que era vermelha e duríssima. Essas cordas não tinham elasticidade e por sorte, eram raríssimas as vezes que o escalador tinha queda livre porque a escalada esportiva ainda não havia sido desenvolvida. Normalmente o escalador caia quicando ou rolando nos “paredões positivos” e isso diminuia a velocidade da queda e o tranco que recebia no final.

Lembro de começar a escalar com uma corda náutica super rígida de 10 mm por 30 metros de comprimento. Muitas vezes as cordadas eram de três pessoas e só tínhamos poucos mosquetões. Quando comprei a minha primeira corda importada a felicidade era tanta que na primeira semana dormia com ela na minha cama. Estranhamente até hoje eu posso sentir o cheiro dela.

A maioria dos escalador usava material dos clubes e os mais afortunados tinham cerca de 10 mosquetões. Para costurar era colocado apenas um no grampo, não se usava fitas. O atrito era insuportável. No começo da década de oitenta começou-se a usar fitas longas para costura. A gente passava uma ponta de uma fita dobrada por dentro do grampo e com um mosquetão prendíamos as duas pontas. A corda era passada dentro desse único mosquetão. A segurança consistia em passar a corda pelo ombro e por debaixo do braço e para rapelar, usávamos um cilindro de alumínio conhecido como Magnone. Hoje a Mônica Pranzl me pertuba para eu comprar um Gri-gri e eu respondo: - Pô, quando eu comecei a escalar a gente dava segurança de ombro, hoje vocês ficam com essas frescuras de Gri-gri… (risadas).

Concomitantemente à chegada das primeiras botas de escalada do tipo EB veio o magnésio, que ajudou muito na evolução do esporte por aqui. Mas no início, como era novidade, o produto foi muito criticado pelos tradicionalistas.

Por volta de 1983, os escaladores que assistiram o filme 007… (eu não lembro do título) acharam uma grande mentira porque o James Bond colocou dentro de uma fenda uma peça metálica que abriu, ficando presa milagrosamente e salvando-lhe a vida. Era o Friend, que ninguém conhecia por aqui. O comentário era um só: - Porra, que cascata!!! Na época só eram encontrados por aqui o nut (stopper) e o hexcentric, além do piton e da cunha de madeira. Mas a maioria das pessoas utilizavam esse material para se prender nas fendas para colocar grampo, aliás, isto hoje ainda é feito.

No final de 1984, fui com alguns colegas escalar no Paraná (na Ilha do Mel e no Marumbi) e quando colocamos os jogos de stopper e de hexcentric fora da mochila um escalador paranaense falou: - Que legal, vocês trouxeram as BESTEIRINHAS. Nós rimos e pensamos que ele estava de gozação, mas depois percebemos que eles chamavam material móvel de besteirinha. Dá até para imaginar a origem desse nome, mas eu não sei como surgiu. Um pouco antes era lançado no Rio de Janeiro o Manifesto da Escalada Natural, escrito pelo André Ilha e que já fazia barulho contra a grampeação de fendas. Aliás, ele ajudou muito na disseminação do uso de proteções móveis. O Osvaldo Pereira Filho (Santa Cruz) combatia ferrenhamente o uso das proteções móveis porque achava que era coisa de elitista. Segundo ele, todos deveriam ter acesso às escaladas e por isso colocava grampo nas fendas, fazendo muitas vezes artificial AO em fendas de 4° grau.

O Mário Arnauld chegou a fabricar um tipo de stopper e um material que lembrava o hexcentric, mas a sua produção não foi muito longe, talvez por falta de compradores. Anos mais tarde, no início da década de 90, o Chiquinho de Petrópolis (RJ) fabricou alguns jogos de friend, mas era uma produção artesanal e difícil, por isso o preço final ficava muito elevado.

Até meados da década de 60, alguns escaladores levavam bambus para conquistar. Eles talhavam degraus nos grossos bambus e os amarravam nos enormes grampos do tipo “Pé de Galinha”. Subiam neles e batiam o grampo ou piton mais acima ou escalavam o lance restante. Várias escaladas famosas foram conquistadas desse jeito e em muitas foram fixados cabos de aço, como é ainda hoje a via CEPI no Pão de Açúcar. Nas fendas largas o piton era substituído pelas cunhas de madeira, que consistia em um sólido pedaço de madeira onde eram atados uns cordeletes de 3 ou 4 mm, por onde eram colocados os mosquetões. Hoje ainda é possível ver algumas nas escaladas no Rio de Janeiro e só de olhar dá um calafrio. Em 1994, foi publicado na revista Climbing (N° 149) um artigo que escrevi sobre as escaladas da época no Brasil e também um pouco sobre sua história (Climbing in the land of Carnival), mas a editora da revista mandou vários e-mails perguntando se o que eu tinha escrito era verdade, porque eles não estavam acreditando como se escalava por aqui na primeira metade do século XX. Narrei para eles as grandes conquistas, no Dedo de Deus, no Pão de Açúcar, etc., mas como o artigo ficou muito grande, eles tiraram a parte da história e publicaram só a metade do que eu escrevi originalmente. Provavelmente eles não acreditaram.

A conquista da face Sul do Garrafão (RJ) em 1975, por Eugênio Epprecht, Marcos da Silveira e Rogério de Oliveira foi um grande marco para a escalada em móvel no Brasil, mas foi a conquista do Tragados Pelo Tempo no Corcovado, em 1984, que trouxe as novas técnicas. O americano David Austin trouxe da Califórnia a técnica de big wall e junto com o Alexandre Portela e o Sérgio Tartari abriram a via. Depois disso, outras escaladas foram conquistadas na Pedra do Sino (RJ), em Salinas (RJ), na Serra do Lenheiro (MG), na Serra do Cipó (MG) e no Marumbi (PR). Lentamente novos adeptos da escalada natural e artificial em móvel foram aparecendo e hoje o estilo se encontra bem consolidado.

Aos poucos foram aparecendo algumas pessoas que traziam material para revender por aqui. As primeiras lojas foram aparecendo: Montcamp, Mont Blanc, Sherpa… Algumas faliram, outras novas apareceram. O Plano Real deu mais condições do brasileiro viajar para o exterior e facilitou a entrada de material importado. Foi o nosso grande “boom”. Mas hoje, com desvalorização do Real já é possível sentir um pouquinho de como era difícil adquirir esses equipamentos. Com a popularização do esporte o mercado se firmou de vez, mas se a situação econômica do país continuar no rumo atual, você, camarada, logo terá que experimentar o que é escalar com um Kichute preto nos pés, e se for um dia ensolarado, de verão, verás como se fabrica um microforno a energia solar.

Texto e fotos: Antônio Paulo Faria.
(Agradeço a Mônica Pranzel e ao André Ilha
pela leitura crítica e sugestões). Texto publicado
na revista Fator2 número 15.

 
           
 
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