| |
Entre novembro de 2007 e março de 2008 escaladores brasileiros fizeram 10 cumes na Patagônia Argentina, mais precisamente na região do Fitz Roy e do Cerro Torre. É um feito surpreendente, mas que não se logra da noite para o dia. Tudo começou com os pioneiros Luis Makoto, Alexandre Portela e Bito Meyer no final dos anos 80. Agora é uma nova geração que tem se esforçado e ano após ano adquirido experiência nesta região selvagem, de paredes e montanhas enormes, sem comparação em nossa terra.
Escalar na Patagônia significa caminhar muito, montar acampamentos, fazer bivaques, escalar com frio, vencer neveros e aproximações perigosas. É sinônimo de guiar com mochila, usar proteção móvel, esperar semanas pelo bom tempo, escalar em gelo, abandonar paredes com mal tempo, contornar gretas, ver avalanches, rapelar de pitons e blocos duvidosos, se comprometer, ter muitas dúvidas. Como diz um amigo nosso "isso é escalada alpina, não é futebol".
Abaixo um breve relato das montanhas escaladas por brasilieiros nesta temporada
(obs.: a graduação das vias está na escala francesa):
Guillaumet
Em janeiro Flavio e Cintia Daflon escalaram a via Founrouge (600m, 5º 6b/A1). Começaram a aproximação para a base às 5 da manhã. Escalaram as dez enfiadas da via e retornaram as onze da noite. Em fevereiro o catarinense Marius Bagnati, na companhia de dois espanhóis, também fez o cume pela Founrouge. Bivaque-cume-bivaque em 11 horas. |
|
| |
Mermoz
Alex e Erick de São Paulo fizeram cume na Mermoz pela Via Argentina (800m, 6b).
Fitz Roy
Até o final de fevereiro nenhum brasileiro havia feito o cume do Fitz Roy. Mas no início de março o catarinense Marius Bagnati e o espanhol “Kike” estavam tentando o cume pelo impressionante Pilar Casaroto. Aguardamos notícias. A dupla paranaense Nativo e Bonga no final de fevereiro chegou ao cume do Pilar Casaroto após dois dias de escalada, sem contar outros dois dias de aproximação, por uma via recém conquistada: Mate, Porro y Todo lo de Mas (850m, 6c), com muitas enfiadas de 6a e 6b. Necessitaram mais um dia para rapelar e outro para voltar a Chaltén. Os cariocas Neto e Álvaro fizeram uma tentativa na via Afanasief (2.300m, Ed+, V+, A2) com o espanhol Kike, mas desceram após 300 metros de escalada.
 |
|
 |
Poincenot
Em janeiro os paranaenses Eduardo “Formiga” e Ricardo Schen fizeram a Oeste da Poincenot (800m, 6a+). Uma via não muito difícil, mas grande e com uma aproximação de sete horas desde o último acampamento! Foram dois dias de escalada e a descida foi feita pela face leste. A mesma via foi escalada alguns dias depois por outra dupla paranaense: Edmilson Padilha (Ed) e Valdesir Machado (Val). Em dezembro os cariocas Nicolau e Neto e a Argentina Silvana também repetiram a Face Oeste da Poincenot, mas foram forçados a descer à 100 metros do cume, devido ao mal tempo. No escuro, com vento e neve, passaram uma noite difícil. No dia seguinte sem a melhora do tempo conseguiram terminar a descida pela face leste.
 |
|
 |
| |
|
|
Rafael Juárez (Inominata)
A via Anglo-americana (500m, 6b) foi repetida na Agulha Rafael por duas cordadas paranaenses. Primeiro por Formiga, Schen e Fabinho. Depois por Ed e Val. Julio Campanella, Fred, Bernardo Colares e Mariana, no final de fevereiro tentaram esta mesma via, mas desceram por estar tarde e com muito vento.
Saint Exupéry
Em janeiro Eduardo "Formiga" e Waldemar Niclewicz escalaram a via Kearney-Carrington (550m, 5+, 6b/A1). No final do mês Formiga voltou a esta mesma montanha, agora em companhia de Ricardo Schen e Jana, para repetir a via Claro di Luna (800m, 6b). Flavio Daflon e Álvaro Loureiro também fizeram cordada nesta mesma via e a escalaram, base-cume, em oito horas. Dois dias depois o carioca Silvio Neto e o argentino Simon a repetiram em sete horas. Isso sem contar as quase três horas de caminhada do acampamento à base, os muitos rapéis, incluindo uma grande descida por um corredor de neve com sapatilhas de escalada e a volta noite adentro.
Agulha S
Esta Agulha foi escalada por sua vertente Oeste por Formiga, Schen e Fabinho. Posteriormente por Ed e Val. Consta de uma longa aproximação (quatro horas) e quatro enfiadas relativamente fáceis. A curitibana Dani (primeira vez na Patagônia) também escalou a S em companhia de argentinos.
Cerro Torre
Os brasileiros Formiga e Schen fizeram uma tentativa no Torre em novembro, mas foram apenas até o ombro, começo das maiores dificuldades e da parte mais vertical da Via do Compressor. Em dezembro o italiano Marcelo e Formiga voltaram e subiram cerca de metade da parede (início da Bolt-Traverse) e outra vez desceram por causa do mal tempo.
Mocho
Flavio Daflon e Julio Campanella escalaram a via Benitiers de 14 enfiadas (500m, ED-, 6c, 6b obl, A1) no dia 2 de março. Schen e Jana estiveram nesta mesma via, mas desceram depois da enfiada mais difícil.
Media Luna
Flavio Daflon e Valdesir Machado repetiram a via Rubio y Azul (500m, 6a, 6c/7a) de oito enfiadas no final de janeiro.
Tellado Negro
Flavio, Cintia Daflon e o alemão Jörg Schüller fizeram no início de fevereiro o cume desta montanha. As maiores dificuldades encontraram num corredor de gelo muito duro de 150 metros, onde fizeram duas enfiadas. Apesar de não ser uma escalada tecnicamente difícil é bastante perigosa, devido a enorme quantidade de blocos soltos nas paredes e corredores, por onde se realiza a ascensão e a descida, principalmente nas condições em que estava a montanha, com pouca neve.
Logística
Para que uma escalada tenha sucesso é fundamental uma boa logística. Pode-se dizer a grosso modo que a escalada em si representa 30% e a logística 70% de uma saída a montanha na Patagônia. Abaixo um pouco da ralação que rola antes e depois de uma escalada:
|