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Encadenamentos
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Normalmente depois de escalar várias vezes uma mesma via, a escalada torna-se não apenas mais fácil, como também mais rápida. Terminando uma via com energia e tempo de sobra, alguns escaladores se perguntaram porque não ir para outra via e escalar um pouco mais?

(passe o mouse sobre as fotos para ver as legendas)
Foi mais ou menos assim que no mundo e no Brasil surgiu a idéia de se escalar duas vias grandes ou duas montanhas num mesmo dia. Com o passar do tempo este encadenamento de vias ou montanhas foi ficando mais apimentado, com os escaladores tentando cada vez vias mais longas e difíceis. Nos Alpes ficaram famosos inúmeros encadenamentos e trilogias, como a que realizou o francês Christophe Profit, em 1985, quando escalou as três faces nortes mais famosas dos Alpes (Eiger, Cervino e Grandes Jorasses) em 48 horas.

No Rio de Janeiro, talvez quem tenha começado, com essa idéia de ‘maratona’ tenha sido o Sérgio Poyares e o Sérgio Bruno. No início dos anos 80, eles escalavam Salomith, Roda Viva, IV Centenário e Soleil, no Babilônia, uma após a outra. No Irmão Menor escalavam Sombra e Água Fresca, Marizel e Paulista e seguiam para o Baden Powel no Irmão Maior. Fizeram também a Singra no Morro da Urca e depois a Italianos no Pão de Açúcar, entre outras.

Alexandre Portela lembra que em 82, ele e o Sérgio Bruno, que segundo o próprio Alexandre era o ‘pilhado’, saíram do Rio numa moto para escalar em Petrópolis. Fizeram a face norte do Mãe D’Água (5º Vsup 400 metros) no vale do Bonfim, não foram ao cume, desceram do último grampo, dirigiram até a Estrada do Contorno e fizeram a Minotauro (5º VIsup 330 metros), o Paredão Amizade (5º IVsup 350 metros) e o Cão Pastor (3º IV 250 metros) e ainda voltaram para o Rio no mesmo dia. Durante a escalada usaram uma corda fina de 80 metros para ganhar tempo.

Em Salinas, no ano de 1986, como se não bastasse o tamanho das paredes por lá, Marcello Ramos e Carlos Ribeiro Filho escalaram num mesmo dia duas das vias mais clássicas do local, a CERJ (5º A0/VIsup) no Capacete com 400 metros e a Leste (5º A0/VIsup) do Pico Maior com 700 metros. Já em 2004, Álvaro Loureiro escalou também essas duas vias, mas em solitário. Saiu das barracas às nove da manhã e voltou antes das cinco da tarde.

Ainda em Salinas, em 2002 os paranaenses José Luis ‘Capachão’ e Marcus França escalaram no Pico Maior a Decadence avec Elegance (5° VIsup A0, 700 metros), rapelaram e escalaram a Leste (5º A0/VIsup, 700 metros). Levaram 13 horas desde que saíram do Refúgio da Águas e retornaram. Em 2004, Sérgio Tartari e o argentino Luciano Fiorenza escalaram também essas duas vias e adicionaram mais uma outra de 700 metros, a Arco da Velha (6º VIIa), somando ao todo cerca de 2100 metros de escalada – 50 enfiadas. Saíram do Refúgio das Águas a uma hora da manhã e estiveram em atividade por 18 horas.

No Pão de Açúcar Tartari e Portela fizeram algumas vezes, desde a década de 80, o Waldo (6º VIIa, 360 metros) e
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o Lagartão (6º VIIa, 300 metros) no mesmo dia. Chegaram a fazer o tempo de uma hora e quarenta minutos para o Waldo e uma hora e meia para o Lagartão. Vários escaladores repetiram a façanha depois, apesar de não baixarem o tempo de escalada.

Bernardo Colares, em 2006, resolveu fazer não só o Waldo, na face norte, e o Lagartão, na face sul, mas também a Italianos, na face oeste e a Bhoemia, na face leste, completando assim as 4 faces do Pão de Açúcar. Com dificuldade para encontrar um parceiro decidiu ir sozinho, e assim o fez. Destaque para o Lagartão, onde levou apenas uma hora e cinqüenta minutos e para a Bohemia que fez em solo. Ele levou ao todo onze horas entre caminhadas e escalada.
Meses depois me juntei a ele para fazermos ‘as 4 faces upgrade’. Começamos pelo Waldo (6º VIIa, 360 metros), onde levamos 1h50m para chegar ao cume, fomos para a Pássaros de Fogo, emendando pelo Cisco Kid até o cume de novo (6º VIIa, 280 metros) em 2 horas, depois Lagartão (6º VIIa, 300 metros) em 1h55m e para terminar, descendo pelo Costão, a Iemanjá (4º Vsup, 430 metros) em 1h15m. Apesar de nunca termos escalado juntos antes, levamos, do início da primeira via ao cume da última, nove horas para completar 1370 metros de escalada.

No ano passado, outro feito em solitário. Em Teresópolis, Antônio Paulo fez o Escalavrado pela via normal, o Dedo de Deus e a Agulha do Diabo, tudo isso em 14 horas. Teve gente que não acreditou e só faltou chamar ele de mentiroso. Em junho deste ano, Antônio Paulo convidou a mim, o Adrian Gianssone e o Fernando Vieira para fazer algo ainda mais puxado. Começamos com a subida do Escalavrado às três horas da manhã. Às 3:45 estávamos no cume. Descemos e seguimos para o Dedo de Deus, pisando no cume às 6:50. Passamos pela entrada do Parque, depois de uma parada para o café da manhã. Subimos pela Travessia da Neblina e fizemos cume da Verruga do Frade às 11:20 e na Agulha do Diabo às 14:50. A idéia era fazer ainda a Chaminé Cassin no São Pedro, mas não deu! Do início ao fim foram 17 horas e segundo o Antônio Paulo “agora são quatro mentirosos!”.

Mas um dos mais impressionantes encadenamentos foi o que Alexandre Portela e Luis Cláudio Pita fizeram no Corcovado. Começaram no Atalho do Diabo (8º Xa E2, 300 metros), rapelaram e subiram o Oitavo Passageiro (7º VIIIb E2, 380 metros). Feito, não só pelo tamanho das vias, mas principalmente pela dificuldade e pelo tempo que demoraram, quatro horas no Atalho e seis horas no Oitavo.

Resta agora imaginar quais serão as próximas façanhas, bons escaladores existem, depende mais da imaginação e obstinação de cada um.

Cedo ou tarde novos feitos aparecerão, é natural, faz parte do espírito aventureiro e desafiador dos escaladores. |
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